De cabelo imenso, comprido, volumoso, seco. Cor de palha, mesmo. Podia ser bonito, muito bonito, se fosse bem tratado. A pele do rosto, de mulher jovem, borbulhosa de quando em vez, nada seca, plena de vida ainda. A apresentação, quase sempre descuidada. Duvido que não fosse vaidosa, que não gostasse de andar sempre bem. Apenas, não podia, não tinha forma de o fazer. Não era feia. Parece-me até que era bonita. Ou teria condições genuínas para o ser. A idade? Não sei exactamente, mas mais de 26 ou 28, não tinha seguramente.
Quatro, eram os filhos que tinha. Dois rapazes e depois, duas meninas. O Miguel… o Miguel… porra!... que saudades tenho eu do Miguel. Dos pulos que me dava para a cintura. Da força com que me enlaçava as pernas. Dos beijos repenicados, com aqueles lábios sempre húmidos que me besuntavam toda. Tem piolhos, diziam-me frequentemente. Tem piolhos. Se os tinha, eram dele… nunca passaram para aqui, nem nunca tive medo que passassem. Dava tudo por aqueles abraços. Nem com os ciúmes dos meus filhos me importava. O Miguel, nos seus 6 anitos, de olhos vivos, negros, imensos de tamanho e brilho. Esmoreciam apenas quando estava doente. Percebia logo que não estava bem, pelos olhos. Bastava-me confirmar com a Cidália, para saber que não estava enganada. E preocupava-me tanto, durante dois ou três dias, o tempo que ele demorava a ficar bom. Por vezes, dava comigo a adivinhá-lo limpinho, de unhas cortadinhas, caracóis sedosos (sempre me fascinaram os cabelos encaracolados), perfumado. Mas o Miguel era filho da Cidália e melhor mãe que ela não podia ter.
Recordo as conversas que tinha com a Cidália. Eu na minha pose de senhora de bem, que não tem onde cair morta. Ela, confidente. Eu conselheira. Ela, ainda mais confidente. Não éramos amigas. E ela, de facto, estava sozinha. A Cidália estava sozinha. Tinha os dois rapazes com ela. Viviam num barracão qualquer, que eu nunca consegui ir ver, apesar dos imensos convites que me fazia. As duas meninas, estavam num colégio qualquer, onde ela também já tinha estado até aos seus 13 anos.
- Elas estão bem. Oxalá consigam aproveitar a oportunidade e se façam lá mulherzinhas como deve ser. Que era o que eu podia ter sido se a minha avó não me tivesse lá ido buscar para trabalhar no campo.
Era o que me dizia frequentemente, quando conversávamos. Os meninos também já tinham estado num lar qualquer. Mas não estavam bem. Um dia foi visitá-los e encontrou o Miguel meio despido. O Zé, o mais velho, tipo bicho, sem soltar uma palavra. Queria trazê-los logo. Chamaram mesmo a GNR. Não os deixaram trazer nesse dia. Enquanto não resolveu o assunto, não veio para casa. Adivinhou-a sozinha, longe de casa, sem dinheiro, desesperada. Nem consigo imaginar onde terá dormido, o que terá comido. Só consigo imaginá-la a chorar, a suplicar que lhe dessem os filhos, que não estavam bem. Na verdade, eles vieram. Foi no Natal, de há 2 anos. Foram recebidos como príncipes, na festa da escola. E o Miguel, saltou-me para a cintura, nas suas pernas decididas, orgulhando-me de morte, fazendo-me sentir uma privilegiada, porque aquelas pernas não apertavam mais nenhuma cintura, senão a minha. Meu querido Miguel.
Passados um, dois anos, não sei, queriam tirar-lhe os meninos outra vez. Que estariam melhor num colégio, que ela não os alimentava bem, que andavam muito sujos, mal vestidos. A Cidália andava a varrer as ruas, na altura. Ganhava algum dinheiro. Os filhos iam à escola todos os dias. Almoçavam na escola todos os dias. A Cidália pagava os almoços todos os dias. Porra!... não andavam limpinhos, não senhor. Nem perfumados, nem bem vestidos… mas eram felizes, riam, sorriam, brilhava-lhes o olhar. Tribunal para aqui, tribunal para ali e a Cidália tinha que arranjar casa em condições para viver com eles. Duas casas foram-lhe negadas ser arrendadas. A ela, só porque era a ela. A Cidália não tinha mãe e mais valia não ter pai. A Cidália não tinha amigos. A Cidália não me tinha a mim. A Cidália estava sozinha.
Um dia apareceu-lhe aquele que foi o seu primeiro namorado, agora homem descomprometido. A Cidália foi com ele e levou os filhos. O homem tinha uma casa. Era o que ela precisava para não lhe tirarem os filhos.
Ao Miguel e ao Zé, nunca mais os vi. A ela, sim. A ele, também. Uma vez. Foi quanto bastou para perceber, que a Cidália realmente precisava de uma casa. Era só da casa, que ela precisava, não era de homem nenhum. Não consigo imaginar os olhos do Miguel a brilhar, nem os do Zé, nem os da Cidália… e queria tanto conseguir.
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Cada vez mais, me sinto incapaz de julgar os outros pelas aparências, pela roupa de marca que usam, pelo perfume, pelo carro, pela casa, pela actividade profissional, em suma... pelo estilo de vida. Cada vez mais, preciso de ouvir de viva voz, de olhar nos olhos, de tocar e de me abandonar ao contexto das situações, para conseguir julgar. Mesmo assim, nunca consigo. Limito-me a aceitar as pessoas como são, com tranquilidade. Ricos, pobres, bem vestidos, mal vestidos, mais ou menos perfumados... nao interessa. São pessoas. E se são pessoas de bem, merecem todo o carinho, todo o respeito. E porra!... não há piolho nenhum que me demova. Há 6 meses que não vejo o Miguel e chora-me tudo de saudade.