sábado, dezembro 20, 2008

Provações


foto daqui


Recostada no sofá, frente à televisão, de manta enrolada às pernas, cabelo desgrenhado e vestida impropriamente, para sair à rua, Maria dos Anjos dissimula o mundo onde se encontra. Quem a vê pensará que se encontra num momento de lazer e descontracção, vendo determinado programa na televisão. Com um sorriso estúpido desenhado no rosto, sente-se protegida pelo disfarce e conta que ninguém lhe diga nada, que ninguém a faça regressar do universo onde na verdade, se encontra.

Deambula imperceptível, por entre gente de meia-idade sem tocar com os pés no chão, observando silenciosamente, como se fazem verdadeiramente, todas as observações.

Reflexivamente.

Uma mulher nua observando-se ao espelho. Ora de frente, ora de lado. Pende-se ligeiramente, para baixo e aperta uma prega de barriga entre os dedos, medindo-lhe a espessura. Endireita-se desanimada, sustem a respiração insuflando o peito e encolhendo a barriga. Não satisfeita, vai lá com as mãos palmando o ventre contra as costas. Expira longamente e pensa: Porra! Estou descomunal. Consola-se levando o seu pensamento enquanto se veste, para aquele vestido azul, comprido, quase até aos pés, em que se conseguia enfiar há uns anos atrás. O sucesso que fazia com ele.

Ressonância: FAZIA, Fazia, fazia…

Um pai divorciado entra em casa onde o aguardam os seus filhos pré-adolescentes. Porta dentro, dissimulando constrangimento, mentalmente preparado para se confrontar com as observações dos miúdos. Não foi preciso muito tempo para que eles disparassem em uníssono: Ò, pai! Furaste as orelhas?! Perde 10 cm de altura, sente um súbito calor rubrar-lhe as maças do rosto (afinal, não estava mentalmente preparado) e demoradamente, reage: Então?! Não fico giro? Os miúdos, sem conseguir proferir palavra perceptível, desmobilizam cabisbaixos, em todas as direcções, deixando para trás um homem sozinho, abandonado e inseguro. Um dos filhos volta atrás e informa: Não me vais buscar à escola assim, ouviste? Fonix! – Acrescenta.

Ressonância: OUVISTE, Ouviste, ouviste…

Um homem sentado nuns degraus junto ao mar, conversa com uma mulher com quem estreita laços. O estreitamento de laços é tão embrionário que a conversa tem pano para mangas. Final de tarde, pôr-do-sol, começa a esfriar e a conversa naquele cenário, já soma horas. O homem propõe, sedutor, decidido, atencioso, que se escolha outro local para continuar a conversa. Talvez aquele barzinho construído em madeira, onde já se acenderam as luzes amareladas que se vêem daqui. Parece-lhe um cenário alternativo àquele, pertinho do mar, com o som de fundo das ondas a desfazer-se na praia. Tão romântico. Aceite a proposta, a mulher levanta-se, prontamente. Ele tenta. As pernas não obedecem. Tinham enrijecido com o frio e a imobilidade. Ao final de duas ou três tentativas a mulher resolve ajudá-lo, puxando-o por um braço. O homem consegue manter-se de pé, equilibrando-se com esforço, tremelicando sobre duas pernas flectidas, frágeis, vacilantes. Apoia-se no ombro da mulher, demorando-se a dar literalmente, o primeiro passo. À mente, surge-lhe a vontade: … de desaparecer daqui.

Ressonância: DAQUI, Daqui, daqui…

Uma mulher vai à festa de anos do sobrinho, ainda criança. Activa e empreendedora. Sempre foi uma mulher activa, com iniciativa, bem-disposta. Uns quantos miúdos à volta de uma mesa cheia de guloseimas começam a promover brincadeiras, cada vez mais desenfreadamente, desajustadas ao espaço onde se encontram. A situação começa a fugir ao controle dos adultos que estavam de serviço como tomadores-de-conta-de-crianças-em-dia-de-festa. A mulher, prontamente, sugere que se vá jogar um jogo para o quintal, aí sim, poderiam correr, cansar-se e perder as forças. Futebol Humano – grita logo uma das crianças. Com tal força sugestiva, nem se questiona nada: Futebol Humano, será. Fazem-se duas equipas: adultos contra crianças. Grande entusiasmo e começa o jogo. As risadas são uma constante e tem que se correr. Ao final de alguns minutos (poucos) a mulher sai de jogo. Desmoralizada, descobre que já não tem esfíncter uretral que aguente simultaneamente, risos e correrias. Propõe-se por isso, fazer de árbitro.

Não há ressonância nenhuma.

Alheia, às razões porque tais pensamentos ecoam na sua mente e porque assim se constroem, Maria dos Anjos distingue-se deles, à voz usurpadora: Então, não tinhas dito que ias para o computador? Reage prontamente: E vou. E vou. Levanta-se do sofá e caminha devagar para o computador. Está capaz de enfrentar de novo, o desafio de escrever.

Experimenta um título: Crises de meia-idade.

(cinco minutos a olhar para o título)

Experimenta outro título: Ressonâncias.

(quieta)

Apaga os títulos anteriores e decide: Provações.


sábado, janeiro 26, 2008

Há quanto tempo...

Há tanto tempo não entrava aqui, que vacilei nos dados a introduzir para iniciar sessão e entrar no editor. Fico satisfeita por ter conseguido à primeira tentativa, apesar da hesitação.

A sensação que tenho é que estou a entrar insegura e timidamente, numa sala cheia de gente na esperança de encontrar caras conhecidas. Olho por isso em meu redor, sem saber muito bem como me comportar. Não sei o que fazer com as mãos, nem consigo desmanchar este sorriso estúpido que me contrai os lábios.

Sinto-me tão desconfortável que vou cumprir o meu objectivo e raspar-me daqui para fora.

UM EXCELENTE ANO DE 2008!!!!!

(o pessoal todo a olhar para mim de esguelha)

Eu sei que estou atrasada, mas carago!... Janeiro ainda não chegou ao fim e o meu voto é sincero, do mais que há.

Andei a dar uma vista de olhos pelo que aqui se publica e curiosamente, mais do que as palavras, despertaram-me interesse, as imagens.

No primeiro caso, O ABRAÇO que a Riacho tem vontade em dar a todos por quem tem carinho (quase consigo imaginar o cuidado que tiveste na escolha da mensagem de votos de um bom ano). Aceita o meu abraço apertado e demorado (não consigo prever a figura triste que faria se te pusesse a vista em cima, de tanta alegria que sei, ia sentir).

No segundo caso, a mensagem do Tuga, o meu vizinho ribatejano, que faz experimentar sentido no conceito de “todos diferentes, todos iguais”, no vídeo que publica no dia 5 de Janeiro.

Actualizo assim o meu blog. Eu sei que é pouco, mas sempre vou dando sinal de vida (mais descansada, Keratina?).

Não faço ideia quando volto, mas volto.


quinta-feira, novembro 22, 2007

Bacoradas

- Ò, mãe?! Sabias que o Wrestling em Espanha é falado em espanhol? – Pergunta-me o meu filho admirado.

- Falado, não. É dobrado, traduzido – Respondi-lhe.

- Ai é? Não são mesmo, as vozes deles, é? – Pergunta ainda mais, admirado.

- Não. Mas os espanhóis fazem assim, dobram os programas todos de língua estrangeira. – Respondi-lhe, muito segura.

- Eiah, g’anda pinta! – (dita a própria lei do menor esforço).

Demorou-se pensativo uns segundos e faz saltar da boca a pergunta que faltava: Porquê?

Lá se foi a minha segurança toda – Sei lá – Respondi-lhe – Deve ser porque têm um índice de analfabetismo muito grande, digo eu.

E pronto, lá vou eu ao Google ver se descubro porque é que os espanhóis dobram os programas de televisão e os filmes e tudo o que não é falado em espanhol, a ver se não mandei uma bacorada daquelas, porque é àquilo que me cheira.

sábado, novembro 10, 2007

Penitência

Hoje, há poucos minutos atrás, assumi pela primeira vez (que me lembre) que era cobarde, ou seja, que tinha agido de determinada maneira por uma questão de falta de coragem. Assim assumi, expressando-me por palavras ditas, a quem me pediu justificações. Óbviamente, já o tinha feito em consciência.

Soou-me tão mal, ouvir-me falar. Soou-me muito pior do que quando a minha consciência se revelou. Soou-me tão mal que me apetece penitenciar-me.

Estava longe de pensar que actualizava este blog com uma penitência. Assim como estava longe de pensar que tal penitência fosse tão relevante que justificasse a actualização de um blog.

Este blog não tem pretensões nenhumas, nem de opinião, nem de informação, nem outra qualquer. Nem sei se alguma vez, teve. Teimo em mantê-lo por duas razões: a primeira não interessa nada, a segunda é por uma questão de organização das minhas próprias ideias. É um desafio a que me obrigo com o propósito de manter a minha capacidade de expressão através da escrita.

Fico triste por me saber cobarde. No entanto, consolo-me que tal sentimento tenha dado origem a este post.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Liberdade


imagem daqui

Não é novidade nenhuma para mim. Aliás este blog nunca foi farto em novidades. É antes, mais um registo, daqueles que me são urgentes. E já fico muito satisfeita que alguma coisa seja urgente registar aqui ao final de 2 meses de inactividade. Tomo portanto este laivo de vida como um sinal positivo de reconciliação com a minha capacidade de expressão básica. É exactamente, sobre elementos básicos que se fundamenta a minha ideia e a vontade de a traduzir em palavras escritas.

Já tinha confessado aqui em tempos, que me emociono sempre com a cena de um filme que vejo e revejo com frequência por ordem dos meus filhos. O voo do hipogrifo sobre o lago no Harry Potter – O Prisioneiro de Azkaban. Quando digo emocionar, é emocionar mesmo, com pêlos dos braços a levantar, nariz a formigar e lágrimas a chegar aos olhos. Claro que é uma situação patética de que nem sequer me orgulho, mas é um facto por mim, pelos meus filhos e alguns amigos, comprovado. Curiosamente, ninguém aproveitou a situação até ao momento, para gracejar.

Ontem, ao telefone com uma amiga, numa daquelas conversas em que se gastam palavras até ao limite máximo da nossa capacidade de resistir ao sono, atento pela primeira vez a uma pergunta repetida seguramente, 3 ou 4 vezes consecutivas: Tas aí? Tinha-me alheado da conversa. Atrás do meu olhar, tinham ido todos os meus sentidos para o ecrã da televisão. Um grande plano de um voo de morcego num imenso céu que nem sequer era azul, tinha concorrido e ganho ao interesse nas palavras que se trocavam.

Ao longo deste tempo tenho descodificado este fascínio que me suscitam estas cenas de voo sempre com grandes asas e um céu imenso e cheguei a uma conclusão que em nada me surpreende e que tal como disse ao princípio, representa afinal, um elemento básico de espaço e fertilidade.

Liberdade.


domingo, junho 03, 2007

Gente Boa

Saltaram-me as lágrimas quando me deram a notícia, ontem, ao final do dia:

O Nelson morreu.

Eu sei que o sofrimento tinha que acabar. Eu sei. Mas, porra!... que tristeza tão grande!... tão difícil de canalizar, ordenar.

Não sou capaz de contribuir com coisa alguma para o consolo da sua família. Não sei sequer, se sou capaz de me aproximar.

Só sei que perdemos todos, um homem bom.


domingo, maio 13, 2007

Ausência, mais uma

Às vezes, quando me detenho a observá-los nos seus movimentos ou quietude, tenho a nítida sensação que retenho registos na memória que me acompanharão daí para a frente, tal como da primeira vez em que os observei a dormir nesta casa. Estes momentos têm sido a minha principal fonte de vida.

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Não me consigo arrepender de nada que tenha feito ou deixado de fazer, de nenhuma opção que tomei. Contudo, encontro-me numa fase de vida que me impele para uma espécie de isolamento, uma absoluta concentração. Este blog vai continuar inactivo como tem estado. Sei que decepciono os meus leitores habituais. Tento redimir-me com a garantia de que voltarei um dia, mais activa. Beijinhos a todos.