domingo, agosto 29, 2004

Perdoar

Entre dois espelhos me escondo.
Não vejo a minha
E a tua dor.
Reduzo a um grão de pó
Aquilo a que tu chamas amor.

Ah, sim!... amei-te.
Fechei os olhos e fui, de mão dada
Onde me levaste.
Só percebi que estávamos perdidos
Quando finalmente paraste.

Olhei para trás e não vi
Rasto de mim própria.
Não. Não.
Nunca consegui compreender
Essa tua solidão.

Recolho-me. Abrigo-me.
Fujo para a frente
Quando te vejo a avançar, assim
Tão de repente.
Detém-me esta onda enfurecida
Que me impede de abraçar
De amar.

Quanto tempo é preciso
Para eu conseguir perdoar?

Regresso ao passado III


Fevereiro 1992 – Sábado à noite. Maria segue atrás do médico pelo corredor da maternidade. Grávida e infeliz. As lágrimas correm-lhe indiscretas, pelo rosto. O médico detém-se a uma porta e convida-a com um gesto, a entrar primeiro que ele. Pede-lhe que se sente. Diz-lhe que não deve estar assim. Não é bom para o bebé. “Vamos ver o que se passa”, acresceta. Sétima ecografia. Durante meia-hora, nenhum dos dois, profere uma única palavra. Maria recorda as últimas horas. Tinha sabido que o seu bebé não estava bem, na tarde anterior. Problemas na coração, nos ossos da cabeça, desses sabia. Mas havia mais. Decidiu não seguir as indicações da médica. Teria que esperar mais uma semana para conhecer melhor a situação. Deu por isso entrada pelas Urgências, daquela que considerava a melhor maternidade, mesmo sem ter acesso legitimo a ela, mesmo sem a sua situação ser considerada urgente, e em boa hora o fez, pensava. Tinha sido difícil, mas tinha conseguido convencer os médicos a fazer nova ecografia. Ninguém sabia que ali estava. Não tinha dito nada a ninguém. Foi sozinha. Um dos médicos melhor credenciados, um dos mais avançados aparelhos… e ali estava ela, à espera de respostas. Quando o médico terminou, confirmam-se todas as suspeitas. Era impossível, com tantas malformações, um feto sobreviver fora do útero. Nem compreende como tinha chegado a avançado estado de gestação. Era inacreditável, com tanta ecografia feita, só agora se detectarem estas anomalias. Era inacreditável. Maria ia perder o bebé. Marcou-se nova ecografia, desta vez com um cardiologista. Mais uma cordocentese para recolha de sangue do bebé. Tudo para daí a 2 dias. Encaminhamento para Consulta de Genética e Centro de Diagnóstico Pré-Natal. Aconselhamento de pedido de interrupção voluntária de gravidez. O feto está em sofrimento. O coração não vai aguentar muito mais tempo. Maria seria poupada ao desgaste dos 2 últimos meses de gravidez. Nada lhe parecia fazer sentido.

Ainda hoje, não compreende. A gravidez tinha começado mal, de facto. Foi seguida em Alto Risco, até aos 3 meses. Se tinha conseguido “segurar” o bebé até essa altura, estaria livre de perigo, a partir daí. Foram despistadas as doenças de família. Recorda novamente a investigação que tinha feito sobre a doença da sua avó Emília. Tinha também conversado com o médico da sua mãe. Nada de mal lhe podia acontecer, a doença não era sequer hereditária, apenas de tendência familiar, como quase todas. Por isso não chegou a fazer Amniocentese. Cinco ecografias, feitas pela mesma médica, quase todas feitas a pedido de Maria, ao seu médico. Concordou sempre. Carinhoso, cuidadoso, tentando tranquiliza-la.

Tinha perdido o bebé, sim. Sara, se chamaria se vivesse. Sara, ficou para sempre. Lembra-se de não saber do que sentia falta, após a interrupção da gravidez, se da barriga, se do bebé. Se não tinha barriga, devia ter bebé. Se não tinha bebé, ainda devia ter barriga. Lembra-se da conversa que teve com o médico a quem pediu alta para poder estar presente aquando do funeral. Como ele tentou anima-la. Uma dor profunda que se arrastou durante dois meses e foi atenuando muito lentamente, após essa data. Nessa altura, já Maria tinha na sua posse, o Relatório de Genética, com descrição de Exame Necrópsico: …”encefalocelo occipital, fenda palatina bilateral, malformação dos pavilhões auriculares, malformação dos membros inferiores, defeito de septo aurículo-ventricular incompleto, rotação incompleta do intestino, múltiplos baços acessórios, rim direito pequeno, vesícula biliar parcial incluída no parênquima hepático e localizada à esquerda do ligamento redondo.

Arrepia-se. Fecha os olhos demoradamente. Ainda custa a crer. Ao final de doze anos, lembra-se como se fosse ontem, da reacção da médica que lhe fez as cinco ecografias, quando lhe deu uma fotocópia do Relatório de Genética. Antes de o receber, escusava-se com desculpas e lamentos. “Às vezes é difícil ver as malformações”, disse. Maria, estendeu-lhe a folha de papel. Passados breves segundos, a médica escondeu a cara entre as mãos e não a voltou a descobrir. “Oxalá, não se volte a enganar desta maneira”, não se lembra se disse, se pensou apenas, antes de sair do consultório. A médica metia dó. Provavelmente nem terá dito nada, por isso mesmo.

Afinal, agora há distância de tantos anos, este erro parece-lhe mais esbatido. A médica cometeu um erro sim, punível até com pena de suspensão, não fosse ter sido amnistiada pela Inspecção-Geral de Saúde, sabe disso. Contudo, a punição máxima, teve-a no momento de confronto com Maria e com o relatório que a mesma lhe colocou nas mãos. Mas não foi responsável pelas anomalias da Sara. Estas definiram-se no momento da concepção. Algo correu mal. Nunca se saberá o quê.

Guarda tudo. Triste mas tranquila. Ultimamente, tem dado à própria vida, um valor diferente do que dava. Efémero, por isso mais valorizável. E hoje, nesse preciso momento, parece-lhe tão fugaz, qualquer umas das vidas que percorreu, folheando papéis, recordando situações de tristeza, de dor, de termo. Deveria talvez, começar por acreditar no destino. Mas, não. Está decidida a continuar a percorrer um caminho de escolha livre, sem conformismo de especial inibição. Não se pode ficar à espera de coisa nenhuma, sob pena de não se viver na maior plenitude possível.

sábado, agosto 28, 2004

Regresso ao passado II


Lembra-se de subir as escadas, devagar, sem pressa de chegar. Contudo, ansiosa, expectante. Conhece aquele Serviço de Neurologia, como a palma das mãos. A sua mãe esteve lá internada, durante meses, pouco tempo antes desse dia. Na mesma enfermaria onde tinha estado a sua avó Emília, 22 anos antes. Esta coincidência é dolorosa, como o conceito de destino, em que nunca quis acreditar. Sem fuga possível. Angustiante. Redutor. Sabe a que sala se deve dirigir, conforme conhece todos os caminhos que a ela vão dar. Os de acesso público e ou outros, em que circula sem autorização. Nunca ninguém lhe disse nada. Nunca ninguém lhe chamou a atenção. Percorre aqueles corredores, usa qualquer um dos elevadores, entra em qualquer sala, como se da casa dela se tratasse. Mas, nesse dia, foi as escadas de acesso público que subiu. Como qualquer pessoa. Como qualquer visita. Ia à procura da médica de que lhe tinha falado no dia anterior, a funcionária da secretaria. Sabia que estava à sua espera. Tinha combinado com a enfermeira. E a médica já sabia do que se tratava. Entrou e fez-se anunciar. Surgir a médica. Já a tinha visto, sim. Mas não sabia que era ela. Cabelos grisalhos. Óculos na ponte do nariz. Ainda de bata branca. Estava de saída, Maria sabia. Simpática e acessível, convidou-a a sentar-se e começaram a conversar. “Não. Paramiloidose, não era. Seguramente”, disse a Maria. Explicou-lhe que essa doença, compromete também os membros superiores. “E ela tinha umas mãos de ouro”, acrescentou. Bordava, fazia crochet, tricot, até à máquina escrevia. Não. Paramiloidose, não. Insistia, convictamente. Tinha tido tempo suficiente para se manifestar nas mãos e nunca se manifestou. O que tinha sido, não sabia. “Nunca se soube”, repetia. Maria estava tranquila. Esboçava até um sorriso nos lábios, enquanto ouvia a médica. Contava-lhe histórias, que revelavam uma avó bem disposta e alegre. Faceta que desconhecia. Sempre lhe contaram histórias tristes. Histórias sob um cenário de guerra, na infância da mãe e do tio. Episódios ocorridos já na fase da doença, causadores de grande sofrimento para quem os contava. Conhecia agora, uma avó diferente. Estimada por todos. Forte e lutadora. “Sempre bem disposta. Nunca se deixava ir abaixo.”, dizia a médica. Maria deliciava-se. Curiosa, ia fazendo perguntas. A médica não revelava pressa. Assim estiveram algum tempo, findo o qual, juntas, desceram as escadas. Despediram-se ao fundo das mesmas. Maria abandonou o serviço, seguiu o seu caminho. Paramiloidose, não era. Poderia aceitar esta observação como certa. Aceitou-a mesmo.

Ia passando uma a uma, cada folha. Deteve-se numas fotocópias propositadamente agrupadas com um clip. Separou-as. Palavras sublinhadas a marcador de cor. Correu os olhos sobre elas. Periarterite Nodosa (Doença de Kussmaul) – Rara e potencialmente fatal inflamação das pequenas artérias. Resulta frequentemente em trombose arterial e morte de tecidos circundantes. A causa da Periarterite Nodosa é desconhecida. Doença de tendência familiar, verifica-se geralmente em pessoas com idade entre os 25 e os 50 anos, e é mais vulgar nos homens que nas mulheres, leu. Continuou. Hereditariedade. Mais definições da doença. Lembra-se de ter passado algumas tardes em bibliotecas, recolhendo estas definições. Pousou as folhas e olhou em frente, retrocedendo no tempo.

Fevereiro 1982 – Ouvia o médico da sua mãe. Usava termos complexos de difícil compreensão referindo-se ao diagnóstico da doença. No rosto de Maria, o desespero. Era mau, aquilo que ouvia. Não estava ali mais ninguém. Tinha que compreender tudo para depois conseguir explicar. À mãe, internada na enfermaria do fundo. Ao pai que não teve coragem de a acompanhar, por adivinhar as más notícias. Aos irmãos, ainda mais jovens. O médico ia dulcificando a voz, à medida que se apercebia do estado de espírito dela, a ceder, vertiginosamente. Queria ser forte e não era capaz. O médico explicava-lhe o que ia acontecer. Como se teriam que preparar. Por fim, convidou-a para se sentar. Deram 3 ou 4 passos até ao banco corrido, mais próximo, e sentaram-se. Maria perguntou quanto tempo faltava até ao fim. 6 meses, 2 anos. Não sabia. Tudo dependia de muita coisa. Tinha que ajudar a mãe. Tinha que ajudar o pai. Tinha que ser forte.

“Tinha que ser forte”. Entoava-lhe a voz do médico. Maria voltou a pegar nas folhas, arrumando-as na pasta. Passaram 16 anos desde esse dia, até ao dia em que a mãe morreu. 16 angustiantes anos, em que todos puderam ver a mãe a definhar. Uma morte gota a gota, cujo fim, foi um respirar fundo após uma dor insuportável. Marcante na vida de todos. Vagarosamente, guardou a pasta na caixa. Pegou na outra. Vacilou. Deveria guardá-la sem a abrir, sabe disso. Mas não. Tinha mesmo que ver. Fotografias dela própria. Grávida e sorridente. Feliz. Correm-lhe memórias em turbilhão, fixando-se na última.

Fevereiro 1992 – Sexta-Feira, final de tarde. Maria entra no consultório. Grávida e feliz. Vai fazer mais uma egógrafia obstétrica. Está ansiosa. Quer saber se está tudo bem, se é menina ou menino. Tinha feito uma, 15 dias atrás. No dia a seguir, marcou esta, para outra clínica, com outra médica. Tinha que ter a certeza que estava tudo bem. Fazia-se acompanhar pelo pai do seu bebé. A certa altura, apercebeu-se que o exame estava a demorar mais do que o habitual. A médica tinha parado de conversar. O silêncio ganhava espaço. Maria percebeu que algo não estava bem. Perguntou sem rodeios. A médica respondeu da mesma forma. Alguma coisa no coração do bebé, não estava bem. “Como… não estava bem?”. A médica não se fazia explicar. “Não era só no coração, havia mais coisas, também”, adiantava. Mais coisas… que coisas? Como era possível? Aquela era a sexta ecografia, em 7 meses de gravidez. Não tinha feito uma, nem duas, nem três. Era a sexta ecografia. Como é que podiam haver coisas, que não estavam bem? Que coisas? A médica, insegura, ia falando aos sulcos e em baixo tom. Tentava em vão, transmitir alguma tranquilidade, enquanto Maria se ia calando. Ficou ali, como uma intrusa a ouvir a conversa da médica e do pai do seu bebé. A gravidez tinha começado mal, dizia ele. Com duas ameaças de aborto espontâneo. Tinha feito repouso absoluto até ao terceiro mês. Tinha investigado doenças familiares exaustivamente, nomeadamente as da sua avó Emília e da sua mãe, tendo-se escusado uma Amniócentese, por se ter feito despiste de doença grave, hereditária. “Antes tivesse sido feita” observava a médica. Não se lembrava como tinha saído dali. Não se lembrava de mais nada, senão das “coisas que não estavam bem”. Que coisas? Tinha tido tanto cuidado. Tinha investigado tudo. Do que se teria esquecido? O que teria corrido mal?

12 anos volvidos, desde esse dia. Maria guarda as fotografias e acende um cigarro. Fecha a pasta e guarda tudo na caixa de arquivo. Para quê lembrar isto agora? Não. Volta a tirar tudo, tem que ver o resto.

(continua)

Regresso ao passado I


Colocou a caixa de arquivo morto sobre o móvel. Não a abriu de imediato. O que estaria lá dentro? Já não se lembrava. Devagarinho levantou a tampa. Pastas. Retirou-as uma a uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Fixou-se nas duas últimas. “Avó Emília + Mamã”, leu na primeira. “Sara”, estava escrito na segunda. Ambas as etiquetas escritas com a sua letra. A tristeza invadiu-a, devagarinho. Antes não tivesse aberto a caixa. Inevitavelmente, teria que rever aqueles papéis. Regressar ao passado. Na primeira pasta, uma foto amarelada. Um grupo de pessoas. Adultos e crianças. Ao centro, uma senhora sentada numa cadeira de rodas. A avó Emília. À sua esquerda, a mãe, ainda mulher jovem, com o seu sobrinho ao colo. Hoje um homem de 42 anos. Tios, tias, primos… gente que já morreu. Registos de infância, de homens e mulheres, com quem convive hoje.

Novembro 1991 – Maria aguarda a sua vez para ser atendida. Está ansiosa. Impaciente. Mas reserva-se. Quando chega à sua vez, a funcionária da secretaria do hospital, já sabe ao que vai. Com simpatia, manda-a aguardar e vira costas. Volta rapidamente com uma folha de papel azul, e comenta que Maria vai ficar desiludida com o conteúdo do documento. Maria não presta atenção à voz da senhora. Não ouve, sequer. Percorre com os seus olhos ávidos, as palavras escritas no documento. Encontra. "Diagnóstico: Mielite Transversa Paraplégica”. Sente-se aliviada por não ter lido “Paramiloidose” (vulgo Doença dos Pezinhos). No mesmo instante, é assaltada pela dúvida e questiona a funcionária, se não quererá dizer a mesma coisa. Não. Respondeu a senhora. E adianta que Mielite Transversa Paraplégica, é uma consequência, um estado, originado por uma doença, quer dizer apenas que o doente é paralítico, não especificando a causa. Maria esboça a desolação no rosto. Afinal, não tinha obtido resposta. No dia anterior, tinha pedido por escrito, depois de explicar as razões, àquela funcionária, uma Certidão com Diagnóstico de Doença, relativa à sua avó Emília. Com urgência. Era necessário despistar Paramiloidose. E afinal, não há diagnóstico. A funcionária comove-se com a desilusão de Maria. Explica-lhe que naquele tempo era diferente. A medicina não estava tão avançada. Muitas vezes, não se sabia de que doenças padeciam as pessoas. Maria não diz palavra. Não levanta os olhos da folha de papel azul que tem nas mãos. Faz-se silêncio. A funcionária, pede-lhe para aguardar e sai do gabinete. Desta vez, demora-se. Quando volta, traz consigo mais papeis. Folhas compridas e estreitas, amareladas pelo tempo. Com um ar comprometido, mostra-lhas, poisando-as sobre o balcão. Maria observa as folhas. É o registo do último internamento, diz a funcionária. Adianta que vai fazer fotocópias e lhas dá. Quê as leve. Que as dê a ler ao médico. Oxalá, possam ajudar. Era o máximo que podia fazer. Maria percebe que a senhora não está autorizada a fazê-lo. Que não está a cumprir regras. Mas aceita. Concorda e agradece insistentemente. A funcionária fala-lhe de uma médica, desse tempo, ainda ao serviço. Que a procurasse, que tentasse falar com ela, ver se se lembraria de alguma coisa.

Passados 13 anos, tem novamente estas folhas nas mãos. Não lhe serviram de nada. Recorda com carinho a atitude da funcionária. E volta a percorrer com os olhos, os vários tipos de letras manuscritas nas folhas. Seguramente, escritas por várias pessoas. Algumas perfeitamente ilegíveis. O registo, dia a dia do último internamento da sua avó. Nunca a conheceu. Estas folhas, nas suas mãos, resultam no momento em que mais perto esteve dela. Desde Janeiro de 1964, a Julho do mesmo ano. “Alta a pedido da família”, lê. Para ir morrer em casa, sabia. Tinha-lhe contado a sua mãe. Morreu 2 dias depois de sair do hospital, confirma a Certidão de Óbito Os medicamentos que tomou, análises e exames que fez e seus resultados, registos de temperatura. Transfusões de sangue e sua quantidade. Um visto, em "alimentação". Sem visto, se não comeu. Três ou quatro pontos de interrogação. Os médicos andavam à nora, pensou. “Foi a ureia que a matou”, entoa a voz do tio, na sua memória. Foi a ureia que a matou. “Ureia no sangue”, lê agora. Um visto, à frente da frase. O tio tinha razão. Foi a ureia que deu o golpe final. Doze anos, num hospital, quase ininterruptamente. Os últimos da sua vida. Um dia, acordou de manhã e não andava. As pernas não obedeciam. Nunca mais obedeceram. Morreu com 42 anos. Uma mulher bela, na sua juventude. Rosto de mulher fatal, registaram as muitas fotos que lhe fizeram. Lábios rubros e brilhantes, cuidadosamente delineados e pintados. Poses de estrela, com luz posterior a esbater os cabelos negros, compridos e ondulados. Unhas longas cuidadosamente tratadas, em mãos que ora apoiavam o queixo, ora soltavam o cabelo, ora se cruzavam sobre os joelhos dobrados. Tantas fotografias conhece Maria, da sua avó. Quase todas de posse da sua mãe. Mas viu outras, que lhe mostraram orgulhosamente, o seu tio e a sua tia-avó. Linda de morrer, em todas elas. Digna de ser mostrada, de facto. Generosa, segundo consta. Amiga de ajudar o próximo. Maria, sempre teve pena de não a conhecer.

(continua)

sexta-feira, agosto 27, 2004

A minha melhor amiga


Linda!... sei que te vou por a chorar. Faço-o, porque estou certa que não vai ser um choro de tristeza. Apenas te vou comover. E nem é por isso sequer, que o faço. Estas linhas têm que ser escritas, como algo que se deve fazer, sob pena de não ter sido feito. A angústia da oportunidade que se perdeu. Tem-me dado para isto, ultimamente. Deve ser da idade. E isto da blogosfera é um óptimo fio condutor. Alguns aproveitam para expressar opiniões. Eu cá… digo tudo como os malucos. O que me vai na alma, claro. Por isso, encosta-te e acende um cigarro. Manda os putos para a tua sogra. Desliga o telefone e lê-me… se fazes o favor. É para ti que escrevo e todos, vão ser testemunhas.

Há uns tempos, escrevi No Domingo Passado (já o publiquei). A propósito do Livro do Riso e do Esquecimento, de Milan Kundera, falei de ti. Sim, foste tu que mo oferecestes, antes de ir embora. Referi-me a ti, como “aquela que foi um dia, a minha melhor amiga”, como se já não fosse. Foi assim que escrevi. Confesso, que nestes últimos 10 anos, em que não te ponho a vista em cima, me surgiram algumas (poucas) dúvidas. Esse deve ter sido um dos dias. Tens que convir, que legítimas. Tu própria, as deves ter tido, também. Não será patético, referirmo-nos a uma pessoa que já não vemos há 10 anos, com quem falamos meia dúzia de vezes por ano (ao telefone, claro está) como sendo a nossa melhor amiga? Afinal, acabamos por ter outras amigas que nos estão mais perto, a quem vemos os olhos, a quem damos abraços, com quem trocamos desabafos. Tenho razão, ou não (apesar disto estar a parecer um discurso)? É, linda!... eu sei que te revês nestas palavras e sabes onde quero chegar. E nem os olhos me vês.

Melhor amiga? Que lamechice. Sim, será. Para muitos. Não para ti. Ainda por cima, agora. Longe da Pátria. Longe da família. Longe da língua. Fechada em casa, com 2 filhos. Eu sei que te vai saber bem, Ivone. E juro-te, que a mim, também.

Eu sou a Ana Quinteiro. Tenho 41 anos. A minha melhor amiga é a Ivone Leite. Conheço-a há 21 anos. E acho que vai ser sempre a minha melhor amiga. Porque nem precisa de me ver os olhos para saber o que sinto. Porque se vê doida para adormecer, depois de falar comigo ao telefone. Porque se sente pequenina, cada vez que os meus problemas lhe invadem o pensamento. Porque não me abraça há 10 anos e continua a ter vontade de o fazer.

Desculpa, linda!... tinha mesmo que ser. Tu lês-me aqui, todos os dias. Hoje escrevi eu para ti, em público.

Beijinho grande. Muita saudade.

quinta-feira, agosto 26, 2004

Poucas e curtas

Chegaram. Todos. Sãos e salvos.
Não sei porquê... ... sinto-me como se tivesse crescido 2 ou 3 cm.

Um, dois, três... deu três pulinhos no tempo

(Dedicado a um fantasma chamado Riacho)

Devagarinho, veio ter comigo, cabisbaixa. Podia não ter reparado, aflita que estava nos meus afazeres. Mas reparei. E perguntei-lhe, enquanto limpava as mãos:

- Oh, filha!... Estás a fazer beicinho?

Desatou a chorar com o queixo apoiado na minha mão. Queixou-se do irmão, que lhe tinha atirado com o corpo do Snoopy à barriga (da cabeça, já não sabemos). Levantei-lhe a camisola, dei-lhe um beijinho na mancha mínima e rosada, que lhe encontrei na pele. Abracei-a. A cabeça dela, dá-me acima da barriga, abaixo do peito. Encaixa lindamente. E ficámos assim, uns minutinhos. Já é hábito. Das outras vezes, costuma dizer que ouve o meu coração. Hoje não teve tempo. Porque lhe disse que me sabia bem, a cabecinha dela… ali encostada a mim.

Lembrou-se então, que ia crescer e já com os olhos a brilhar disse:

- Quando tiver 10, dou-te por aqui. Marcou-me o pescoço com a mão.
- Quando for como a Inês, dou-te por aqui. Em bicos de pés, tocou-me na testa.
- E quando for como tu… …

A sorrir, deu um salto com o braço esticado. Imediatamente após, perguntou-me, fechando o sorriso:

- Oh, mãe! O avô usa fralda?
- Não. Respondi-lhe.
- É que a Margarida disse que todos os velhotes usam fralda.

A Margarida é uma colega dela. Mais velha, 15 dias.

- Nem todos. Respondi-lhe eu.
- Então, tu não vais usar.
- Não. Respondi-lhe convictamente.

Ia a virar costas, para se ir embora, aliviada. Eu não deixei. Contive a força nas mãos e apertei suavemente o rosto dela. Aproximei-me tanto dele, que nem via os totós que lhe fiz, hoje de manhã. E fiquei assim, a olhar aquele rosto de criança feliz. Disfarçando o olhar, roubei-lhe aquele sorriso. Tinha que o fazer. Disfarçar o olhar para que não me visse a tristeza. Roubar-lhe o sorriso para o guardar eternamente. Porque esta minha filha de 6 anos, que me consegue ler a alma, deu 3 pulinhos no tempo e chegou aos 40 anos. Afligiu-se. Não com os 40 anos dela, mas com os 34 que tenho a mais. Viu-me velhota e doente. Teve medo. E naquele momento em que retive o rosto dela entre as mãos, vi-lhe nos olhos o amor que me tem e no sorriso, a felicidade de me ter.

Finalmente, deixei-a ir. Foi-se embora aos saltaricos. Feliz e descansada. Eu retomei os meus afazeres, presa àquele sorriso. Mais tarde pensei que tenho que a deixar crescer um pouco mais e desdramatizar este uso de fraldas, dos velhotes. Vamos lá ver se não me esqueço.


Escrito a 25 de Maio de 2004