sábado, setembro 03, 2005

Conversas

Sou danada para conversar. Aquelas conversas que não têm fim. São apenas, interrompidas pelo cansaço, sendo sempre possível serem retomadas, assim haja oportunidade para isso.

Obviamente, nem com toda a gente, se consegue manter este tipo de conversa. Terão que ser, tal como eu, pessoas resistentes. De preferência de opinião contrária à minha. Não há nada mais maçador do que a permanente concordância.

Penso contudo, que a troca de argumentos, até mesmo o confronto com eles desenvolvido, não passa disso mesmo. Longe vai o tempo, se alguma vez o vivi, em que tinha a ilusão, a pretensão, de convencer alguém com os meus argumentos.

É verdade que em tempos de adolescência, havia certos temas que não conseguia discutir, sem que me brilhassem demais os olhos, sem que a minha voz se mantivesse sempre, abaixo do nível do enfurecimento. Cheguei mesmo a abandonar certos temas de conversa, durante alguns anos. Mas foram eles, somados uns em cima dos outros, que me fizeram compreender que as discussões, as trocas de argumentos, de opiniões, em que me envolvo, não pretendem mudar nada. Eu sei isso.

Ai de mim, se a seguir a uma conversa, me não mantivesse à mesma no Benfica, não continuasse a ser crente em coisíssima nenhuma, trocasse as minhas calças de ganga por saias travadas, deixasse de aceitar a diferença, ou não pudesse continuar a dizer aquilo que desejo quando a isso me disponho.

Pelo-me por uma boa conversa, sim. Daquelas que me mantenham acordada. Daquelas que se desenvolvem mutuamente, atravessando a troca de argumentos, mas que nunca tenham termo com a expressão: Pois, mas eu não quero ou não gosto, assim. É que só nessa altura, percebo que eu sei que não pretendo mudar nada, mas a pessoa com quem converso, não sabe, nem quer saber. Torna-se por isso, o confronto, desigual. E eu perco a capacidade de argumentar.

Há coisas que têm que mudar, sim. Sobretudo aspectos de carácter social. E sobre esses também é preciso discutir, pois claro. Promover e consolidar a formação. Mas isso é um trabalho moroso em termos de resultado. E é outro assunto.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Obrigado

Há já muito tempo, não havia nada que te pudesse agradecer.

Preciso de ver os miúdos

Pareceu-me tão ridículo ouvir a minha voz a dizer isto.
Mas, disse. Voltava a dizer. Se não me tivessem feito a vontade, imediatamente.

A sério que penso… que estou convencida, que o aspecto mais difícil de suportar em consequência à separação com o pai dos meus filhos, é mesmo a partilha dos mesmos. 1 mês de férias com o pai. É perfeitamente insuportável. Mais uma semana que fosse e rebentava comigo. Estou por um fio. O termo certo é mesmo: desesperante.

É evidente que esta verificação me fez pensar. O estado a que cheguei, ao final de um mês, assusta-me. Tento analisar a questão de uma forma fria, resoluta e útil, tentando evitar futuros danos. Obviamente, não consigo. Conseguirei certamente, a pouco e pouco.

Há contudo, uma conclusão que já vinha fazendo e que salta logo à vista. A minha dependência. O facto de não me conseguir sentir bem, sem que isso dependa de outras pessoas. Desagrada-me tanto esta verificação. Faz-me sentir frágil. Tão frágil que nem me acanho a pedir ajuda.

Mais uma vez, o meu pensamento corre para uma imagem. Um filme, neste caso. Monster’s Ball – Depois do ódio. É tão efémera a força. É tão possível passar de um estado resistente para a fragilidade. Basta apenas que aconteça uma coisa: um abanão nos nossos pilares.

Reconhecer isto, com humildade, com verdade, mas sem auto comiseração, parece-me difícil, mas absolutamente necessário para a recuperação dos nossos pilares. Para de um estado frágil, voltar a enfortecer. Mais. Absolutamente fundamental, para que nos possamos defender de futuros abanões.

A grande questão, aqui, no meu ponto de vista, nesta que tento construir, é a possibilidade do reforço dos pilares, sem que o mesmo, dependa de mais ninguém, senão de nós próprios. Será isso, possível? Conseguiremos nós, defender-nos de uma forma tão auto-suficiente, vivendo rodeados de tanta gente? E se o conseguirmos, não correremos o risco de prescindir do relacionamento com os outros, de tão auto-suficientes nos tornarmos? Não correremos nós, o risco de construir um mundo só nosso?

Mais uma vez, a virtude estará no meio-termo. Mas, qual?

Curiosamente, há umas semanas atrás, em conversa com uma miúda tranquila com a vida, verifiquei que na opinião dela, o segredo está na generosidade. Se vivermos num estado de generosidade, de abertura, com o próximo, com a vida, connosco próprios, vivemos tranquilos. Pareceu-me tão inteligente aquela afirmação. Fez todo o sentido, na altura. Depois vi o filme, do qual retirei uma mensagem idêntica. Li ainda, umas coisas que escrevi há uns tempos atrás. E construí uma quase convicção: Se nos construirmos sobre esse tal estado de graça, de generosidade e nos orientarmos em função dos outros e do bem-estar que lhes conseguirmos proporcionar, se sairmos de nós próprios e das nossas necessidades, atingimos a liberdade absoluta. Faz sentido. Todo o sentido. Se não temos necessidades, sentimo-nos confortáveis.

A “quase convicção” cai por terra, com a maior das facilidades, quando afinal, me oiço a dizer: Preciso de ver os miúdos. Quando afinal percebo que não consigo sair de mim e das minhas necessidades. Será talvez, uma questão de persistência. Talvez não seja fácil. Talvez haja um caminho a percorrer.

sábado, agosto 27, 2005

Wonderful Tonight

Fecho-me, envolta numa magia que queria acreditar, não ser só minha… de cada vez que a oiço. Uma viagem acetinada que me permite o deslumbramento de uma paisagem perfeitamente anestesiante. Demoro a voltar a mim e nunca fico na mesma.

Há pessoas mágicas, sim.
Esfumaço a pouco e pouco… de saudades do Sol.
E das noites em que me sentia lindamente.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Bom dia

- Bom dia, para ti também, meu amor.

Palavras que não se dizem.
Parecem-me hoje, as mais fáceis de entender.

Ensinaram à minha filha de 5 anos a dizer “bom dia” em linguagem gestual. De há quase 1 ano a esta parte, todos os dias me deseja um bom dia e uma boa noite, nesta linguagem. Tornou-se um ritual, nosso. Usa sempre a mesma expressão, o mesmo olhar. Chama-me sempre a atenção antes, com uma palavra: mãe. Eu olho para ela. Ela faz o gesto em silêncio. Elegantemente. Sorrio sempre. Ela gosta.

Agora, que não está comigo, é por telefone.

- Mãe!... agora faz silêncio. Vou fazer aquilo que tu gostas.

- Ok. Faz lá.

...

- Bom dia, para ti também, meu amor.

Palavras que não se dizem.
Parecem-me hoje, as mais fáceis de entender.

sábado, julho 16, 2005

Sombra

Vagueio descalça sem rumo
À espera que o tempo passe
Atenta, expectante, ansiosa,
Aguardo que um caminho se trace

Salpicando um céu azul, grandioso
Chovem pétalas de rosas.
Mandou-mas o Sol.
Descem leves, luminosas

Mas o chão está na sombra
De pétalas não se cobriu
Frio, frio… debaixo dos meus pés nus
A ordem não se cumpriu

Rasgo o tempo, enfurecida
Caminho sempre em frente
Não me deixo agarrar
Noutro abraço doce e quente

sábado, julho 02, 2005

Mentira


Posted by Picasa

- Ò mãe!... qual é a coisa mais feia do mundo?
- A coisa mais feia do mundo?

Sei lá. Acho que é desmanchar. Desmanchar uma pessoa, uma imagem, uma verdade. A coisa mais feia do mundo, é a falta de escrúpulos, de valores, que permite esse desmanche. Sem propósito nobre. Sequer, sem propósito algum.

Queres saber também, quais são as pessoas de quem menos gosto, neste mundo? Os chicos-espertos. Aqueles que pensam que sabem mais que os outros. Que se convencem absolutamente disso. Que não percebem que apenas são capazes de fazer aquilo que os outros são incapazes, por uma questão de princípio, de formação, de respeito pelo próximo.

Ainda te posso dizer, qual foi a fase da minha vida que menos gostei de viver, neste mundo. Na verdade, ainda não a vivi. Começo agora, a viver. É a fase em que tenho que me confrontar com o maior dos chicos-espertos. A quem não posso virar costas. É a fase em que vou ter que me reduzir ao mesmo nível deles, dos chicos-espertos, sob pena de me poderem desmanchar.

Era uma resposta muito complicada, por isso, respondi-lhe apenas que a coisa mais feia do mundo… é a mentira.